063 | Sobre assistir filmes de suspense e terror
O que contamina o homem não é o que entra nele, mas o que sai dele como fruto.
“Não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, isto, sim, contamina o homem” Mateus 15:11
Cresci ouvindo esse versículo e fui obrigado a repeti-lo como um mantra. Tinha que tomar cuidado, e devemos ter mesmo, com tudo o que saísse de mim: palavras, gestos e intenções.
Na minha adolescência, fiz parte de uma das igrejas mais famosas do Rio de Janeiro, por causa de um evento que se tornou febre nos anos 80 e 90.
Por ser músico e evangelista de um de nossos projetos, eu era muito próximo de três dos cinco pastores da igreja. De dois deles, tão próximo a ponto de frequentar suas casas.
Um dia, enquanto estava de plantão na igreja, na hora do almoço, fui a uma locadora garantir três filmes para o final de semana. Gosto muito, até hoje, de filmes de ação, policial, guerra, comédia, comédia romântica, mistério, investigação, suspense e terror.
Assisto a filmes de suspense e terror com outro olhar. Fico me perguntando como fizeram determinada cena tecnicamente. O universo criativo me seduz. Um exemplo mais claro são os filmes de zumbis. Dou gargalhadas quando alguém me diz que tem medo de filmes de zumbis. Podem até falar do “clima”… Que clima?
Será que essas pessoas sabem que zumbis, como descritos em filmes e séries, não existem?
Esses “zumbis” são atores ou figurantes, homens, mulheres ou crianças, carregados de maquiagem, máscaras e fantasias, com roupas rasgadas, andando ou até correndo como bêbados.
Não passa disso.
Tenho medo, e me causam calafrios pessoas maldosas, que se fingem de boas, do mundo real, ou seja, filmes com narrativas críveis: sequestros, chacinas, mortes e invasões.
Nesse último quesito, lembro até hoje da sensação de assistir, de madrugada, ao lado da minha ex-mulher, ao angustiante The Strangers (Os Estranhos – foto de capa), de 2008. Na minha opinião, o melhor filme de suspense de todos os tempos. Nada se compara a essa obra prima. Filme para ser visto à noite, com tudo silencioso e escuro. Atuações muito convincentes.
Enfim, busquei três filmes na locadora, e um deles era de terror. Ao voltar para a igreja, como não tinha, e não tenho, nada para esconder, deixei os filmes em um canto da minha mesa.
Um dos pastores entrou, viu os filmes, pegou um deles e disse exatamente assim:
“Crente que tem prazer em assistir filmes de terror nem crente é.”
Aquela frase me fez mal por muitos anos. Eu me sentia um lixo de ser humano e crente, confesso, por anos duvidei da minha fé. Ele foi impiedoso e poderia ter falado de outra maneira comigo.
Fui dispensado dos plantões da igreja e não subia mais para tocar. Foram quatro anos bem difíceis, jogado de lado por causa de um filme. Acho que era Child’s Play (Brinquedo Assassino 1).
Isolado, mas permaneci ali, porque amava muito aquela igreja.
Lembram do versículo inicial?
“O que contamina o homem não é o que entra nele, mas o que sai dele como fruto.”
Cinco anos depois, aquele mesmo pastor, o número um da igreja, foi retirado do ministério. Casado, pai de um casal de jovens brilhantes, estava tendo um caso com a secretária da igreja. Adultério com a secretária da igreja, também casada.
Mas o problema era um filme.
Em tempo: nunca traí minha ex-mulher, noiva ou namoradas. Jamais.
Mas o problema era um filme?
Léo Vilhena| Falando de Vida
Atualização: Esqueci de comentar, a minha cura emocional veio pelo mesmo pastor que me criticou: em 1998 ele, durante uma pregação, aconselhou toda a igreja assistir ao filme ADVOGADO DO DIABO, pois nós cristãos teríamos uma maior clareza de como o Diabo age… É um filme de terror.., Hipocrisia nível hard.